6 de dezembro de 2007

O anjo que caiu.

Um dia eu encontrei um anjo no meu jardim.
Ele estava deitado como se houvesse caído no chão, todo "ralado" pela violência de sua queda.
Era um anjo bonito, de olhar triste mas confortador, de voz séria mas confiável, de olhar doce e seguro.
Era difícil poder ajudá-lo, pois é difícil ajudar alguém que cai do nada,que vem não sei da onde, que tem asas e que voa.
Tentei socorre-lo perguntando se não havia quebrado alguma coisa, se conseguia respirar direito, se estava se sentindo bem, mas a única coisa que o anjo fazia era me olhar com olhos azuis celestiais e esboçar um "quase invisível" sorriso com o canto de seus lábios.
Então, me sentei ao seu lado e não fiz ou falei mais nada.
Fiquei ali, olhando aquele anjo no chão e contemplando sua grandeza e sua beleza por muitas horas, e quando o sol começou a descer no horizonte, anunciando a entrada da noite, vi que naquele momento brotavam dos olhos do anjo lágrimas de dor.
Novamente perguntei a ele se queria que eu fizesse alguma coisa?, se queria que eu buscasse ajuda?, se estava com frio?
Enfim , meu coração se apertava com a dor que via em seus doces olhos, mas ele apenas me disse:
- Meu coração dói. Mas é de saudade.
Só naquele momento percebi que meu coração tambem doía de saudade.
Era uma dor apertadinha , fininha, escondidinha, que vinha crescendo a cada dia, e que naquele exato momento me dei conta que acontecia e doía sempre na hora no por-do-sol, e eu disse ao anjo:
- Meu coração tambem sempre dói nessa hora.
Ele me olhou, e com lágrimas nos olhos me contou sua história.
Me contou como havia sido enganado, como havia acreditado em quem não devia, me contou como foi ingênuo ao desprezar os conselhos de quem o amava de verdade, me falava com voz de dor no quanto estava arrependido de ter se deixado levar pela arrogância, pela ganância, pelo poder, pela excessiva vaidade dos olhos e do coração.
Fiquei ali, ouvindo aquelas palavras e me sentindo tão intima delas, tão perto de tudo aquilo que ele falava.
Eu entendia tudo.
Era como se eu mesma estivesse ali, jogada no chão e chorando minhas mazelas, desejando voltar no tempo e mudar o curso da história.
Em minha cabeça passava um filme de cores e formas incríveis que descreviam cada sentimento, cada acerto e cada erro em minha vida... era como se as palavras daquele anjo tivessem aberto as comportas do meu coração, e as verdades de minha vida estivessem sendo expostas diante de mim mesma.
Eu estava assustada, fascinada, encantada e emocionada.
A dor do arrependimento naqueles olhos angelicais era tanta que doía em mim também, e o som de sua voz era como o som de uma lira desafinada, porém, era lindo.
Havia uma música tocando entre nós, sobre nós, dentro de nós.
Um som que vinha não sei de onde e que entrava em meu jardim tornando cada flor, cada pedacinho de terra e de mato tão perfumado que me elevava a alma.
Era um perfume diferente, muito doce, mas com um toque amadeirado.
Era um cheiro parececido com o cheiro de fogueira apagada rodeada de flores perfumadas, e quanto mais nos entregávamos àquela confissão de dor, mas perfumado ficava meu jardim.
Então derrepente o anjo se calou.
Se calou, fechou seus olhos e tampou seu rosto, e eu , como reação espontânea me afastei.
Fiquei a uma distancia que julguei segura dele , a olhá-lo, e tentando advinhar o que acontecia.
Vi que entre seus dedos as lágrimas ainda brotavam mas não havia mais som em sua voz e nem música no ar.
O sol já havia se posto e a noite se aproximava de nós cobrindo os últimos raios de luz, e eu começava a me sentir insegura.
Aos poucos, o anjo foi se movendo e se "juntando" de sua queda, e ainda com o rosto escondido entre as mãos, colocou-se em pé e me disse:
- Tu me ouviste, tu me entendeste e tu me conheces, mas eu preciso me esconder de ti, pois a escuridão da noite me revelará a ti, mas antes do último raio de sol se esconder entre as trevas noturnas, quero te dizer que a saudade que tenho é a mesma que a tua. É saudades de Deus.
... Tu pecastes - ele me disse- e foste expulsa da presença de Deus, mas tu encontrastes Graça e Perdão, e a hora da tua saudade é a hora que teu espírito se lembra e espera pelo Pai para poderes passear e conversar na viração do dia, mas tu, tu estarás com ELE a passear....e eu, eu também pequei.
...Pequei mais do que todos, pequei e me deixei levar pelo pecado, desejei e fui envolvido pelo desejo, me vendi, me entreguei, me corrompi.... Durante milhares de anos briguei comigo mesmo por isso, me castiguei, me arrependi... e hoje eu tentei fugir.... Fugir de mim, da minha realidade, da minha maldade, dos meus desejos tórridos, da raiva que sinto de mim mesmo, mas estou eternamente preso a isso.... tu não estás assim, tu tens um Salvador, tu és melhor que eu.
Enquanto o anjo me falava (e eu me assustava) o que era perfume desapareceu, o que era música de calou, e da luz do dia só restava um pequeno fio no céu, e ele continuou dizendo:
- Agora entra em tua casa e retorna ao teu Deus. Mostra a ELE tuas falhas e arrepende-te diante DELE.
Concerta-te com ELE, anda com ELE, fala com ELE. agradeçe a ELE pois de ti teve misericórdia.
Exalta a ELE pelo amor amor que ELE te amou, adora a ELE pelo Filho que por ti entregou, e concerta teus caminhos retornando a doce presença Dele.
Então, tudo se escureceu no horizonte.
Não havia sol, não havia lua, não haviam estrelas.
A escuridão tomou conta de meu jardim e nem as luzes da cidade conseguiam ilumina-lo.
Minha alma estava gelada e eu encolhida e encostada em uma árvore.
Meus olhos fixos naquele anjo com o rosto escondido entre as mãos e que me falava com a doçura mais amarga que conheci.
Sua voz já não era suave, mas tornou-se cortante, e aos poucos percebi que um certo cheiro de enxofre entrava pelas minha narinas, e me encolhi desejando não estar mais ali.
E novamente ele me disse:
- Olha pra mim mulher, olha nos meus olhos.
E eu com alma trêmula levantei meus olhos e vi os olhos que me contemplavam, e neles não havia mais doçura ou conforto, mas sim uma vermelhidão de dor, e ele me disse:
- Viste ? Perdi a formosura, perdi a graça, perdi a beleza, perdi minha alma e minha liberdade ...
Fugi e não encontrei saída, corri e não encontrei chegada, deitei-me e não houve descanso para mim, chorei e ninguem recolheu minhas lágrimas, gritei , e ninguém me ouviu.....
Não queiras conhecer onde vivo, não desejes fazer o que faço, não almejes o que não foi feito para ti, não faças o que não deves fazer.
Viva, e deixe viver, ame e não cobre por ser amada, sirva , mas não espere nada em troca, siga o caminho que Deus te deu e não desejes o caminho de ninguém, para que tu não conheças o que eu conheço e para nós não nos encontremos mais.
Então, o anjo tirou as mãos de diante do rosto e me mostrou sua face.
Vi a dor da vida interrompida, a dor da morte, a dor do desamor, a dor da rejeição, a dor do abandono, do ódio, da raiva, da decepção , a dor da mentira, do engano e da manipulação, a dor da falta de perdão, da falta de coragem , e da falta de caráter.
Vi a dor da distância, a dor do "nunca mais", a dor do "não posso" e do "não vou".
Vi a dor estampada em formas disformes e horríveis que me diziam que nada eu poderia fazer para mudar aquela face, mas que poderia sim , evitar aquela face em mim.
Abaixei minha cabeça, olhei para minhas mãos, e nelas o anjo colocou um pouco de pó da terra.
Olhei para aquele pó e entendi que aquilo era a nossa essência, o pó da terra, e vi o quanto não somos nada sem a Água da Vida.
Levantei meus olhos e vi aquele anjo virando poeira e desaparecendo de diante de mim.
Foi rápido demais para eu perceber para que lado que ele foi, se para esquerda ou direita, se para cima ou para baixo, mas ficou no ar um som estranho de partida apressada.
Não sei por mais quanto tempo fiquei ali, olhando para o nada, ouvindo o nada, vendo o nada, com medo de me levantar , com medo de me mover, com medo de me olhar.
Pensei que minha alma ia congelar, e adormeçi.
Acordei com os primeiros raios de sol, e com o som distante de uma lira dissonante.
Olhei ao redor e nada encontrei além do meu jardim que já não estivesse por lá antes. Me levantei e entrei em minha casa, e só então percebi minhas mãos sujas de barro molhado e o perfume de azeite fresco e perfumado no ar.
Então eu soube o que fazer, e fui orar.

3 comentários:

  1. Sempre que você sobe um post novo eu passo por aqui e leio. Não tenho tido tempo, esta semana, para ler e comentar, com raras exceções. Mas estou de olho.

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  2. Desde o começo já pensei: Anjo caído é demônio, não consigo conceder aos anjos afeições de homens, mt menos esses tipos de sentimentos como "arrependimentos" a demônios, não entra na minha cabeça...


    porém achei lindo essa estória, soa como poema =)



    abração
    fica com Deus

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  3. Pois eu gostei da analogia, da poesia que faz pensar e estimula a fé. Ver as mãoz sujas de barro e azeite foi uma figura belíssima. Porém o mais belo foi "e fui orar".

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Nem sempre escrevo por mim, muitas vezes escrevo para mim também...