20 de maio de 2008

Cântico Negro

Estou reduzida aos meus instintos,
estou presa aos meus sentidos,
reduziram o meu direito à minha humanidade,
tiraram o meu semelhante de junto de mim,
arrancaram a minha carta de cidadania.
dissolveram a minha consciência,
mas me deixaram essas palavras na boca:
VEM POR AQUI!!
...dizem-me alguns com olhos doces,
estendem-me os braços e seguros de que seria bom que os ouvisse quando me dizem:
VEM POR AQUI !!
...e eu os olho com olhos laços,
há nos meus olhos ironias e cansaço e cruzo os braços e NUNCA VOU POR ALI !!!
A minha glória é esta, criar desumanidade,
não acompanhar ninguém,
por que eu vivo com ou mesmo sem a vontade com que rasguei o ventre de minha mãe.
NÃO, NÃO VOU POR ALI !!
...só vou por onde me levam meus próprios passos,
se o que busco saber nenhum de vós responde,
porque me dizes VEM POR AQUI ???
Prefiro escorregar nos becos lamaçentos,
redemunhar os ventos como um farrapo,
arrastar meus pés sangrentos à ir por aí !
Se eu vim ao mundo foi só pra desflorar florestas virgens,
e desenhar meus próprios pés na areia inexplorável,
o mais que eu faça não vale nada.
Como então será você, que lhe dão machados, ferramentas e coragem para derrubar seus próprios obstáculos....correm em suas veias o sangue velho dos avós !!
Eu que amo o que é fácil,
amo o longe e a miragem,
amo os abismos, as torrentes e os desertos...Vai!, tendes estradas, tendes jardins, tendes canteiros e tendes pátria, tendes teto e tendes regras e tratados de filósofos e sábios, eu, tenho a minha loucura, levanto-a como um faixo a arder na noite escura, e sinto espuma e sangue e cântico nos lábios.
Deus e o diabo é quem me guiam, mais ninguém !!
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe,
mas eu, que nunca principio nem acabo nasci do amor que há entre Deus e o diabo !!
Ah!... que ninguém me dê piedosas intenções e não me peçam definições, que ninguém me diga:
VEM POR AQUI !!
A minha vida é um vendaval que se soltou,
é uma onda que se levantou,
é um átomo a mais que se animou,
... Não sei por onde vou ?!
... Não sei pra onde vou ?!...
SÓ SEI QUE NÃO VOU POR AÍ !!


.... Ufa ! consegui me lembrar do texto inteirinho... não me lembro o autor, mas quando eu era jovem, declamei de surpresa esse texto diante de uma platéia de 200 pessoas assustadas e chocadas ao ver uma menina de 14 anos gritando a liberdade que os adultos não tinham...era um trabalho escolar sobre a miséria da condição humana e foi realizado no início dos anos 70...os professores deram liberdade aos alunos de escolher seus textos e eu, achei que esse era o melhor.
Creio que não fui presa por ser menor de idade, mas lembro de meus pais sendo chamados para "conversar" com a diretoria.
****
Gostaria de agradecer a Vitória, que me fez lembrar o nome do autor - "José Régio" - e o título do texto - "Cântico Negro".....nada como a família blogosférica em ação !!! beijos pra você !!

10 comentários:

  1. Foi José Régio e o poema chama-se: Cântico Negro.bjj :)

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  2. Muito interessante o texto e a história. Ainda bem q hj temos uma certa "liberdade" pelo menos pra deixar nossas idéias. =D Fik c Deus

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  3. Nossa! Que fúria poética! De vocês dois, aliás!
    Precisa ter muita convicção dos próprios ideais para escrever esse texto forte, e precisa dessa mesma convicção para declamá-lo da forma como você fez, impondo sua opinião sincera e fazendo uso de toda a coragem que uma garota de 14 anos consegue reunir.
    Ah, se tivéssemos mais garotas assim, decididas a ousar em opiniões nuas e cruas...!

    Beijos!!

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  4. Olá querida Alice, como estás ?
    Adorei o teu texto, bem elaborado, foi uum prazer ler-te!...
    Beijinhos de carinho e amizade,
    Fernandinha

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  5. É, naquela época deveria ser complicado falar sobre liberdade...

    Bjs flor.

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  6. Declamou??

    Eitaa, procura meu queixo aí pelo chaõ... ele caiu!!

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  7. Atualize o sei link sobre a Sociedade Bonhoefer:
    http://www.sociedadebonhoeffer.org.br/quem_foi.htm

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Nem sempre escrevo por mim, muitas vezes escrevo para mim também...